30.5.09

Doença de uma vida.

« Um homem dos seus cinquenta anos foi internado com um problema pulmonar. Mas, nem o sofrimento que todos lhe viam estampado no rosto, nem a dificuldade em andar, visivelmente dolorosa, tinham a sua origem no mal que motivara o seu internamento. Do que o homem se queixava, amargamente, aos outros doentes do sanatório, era... »
José Saramago, " Bagagem do Viajante "


... da dolorosa vida que levara e continuara a trazer com ele, a família que após uma luta intensa contra o seu vício, o jogo, o deixara.
- Partiram sem dizer nada. - contava ele, tristemente, aos seus, agora, companheiros. - Saíram de casa ao amanhecer, mesmo antes da sua quinta dar os seus primeiros sinais de movimento à amarga manhã que viria a surgir.
A claridade começava agora a invadir-lhe os olhos, era mais um dia. Sabia que tinha mais um obstáculo pela frente, viver até ao amanhã. Ouvia falar de tudo, as pessoas que o viam, comentavam baixinho umas para as outras o aspecto que ele tinha: a barba visivelmente por fazer à vários dias, o cabelo branco e velho, a face cansada e carrancuda vincada pelas rugas da memória e a sua cor suja de um passado menos bom.
Estava na hora da conversa, e como sempre, proferia as palavras: " partiram ao amanhecer… " e continuava a sua história.
Levara a sua vida, nos últimos dez anos, longe da filha, - cuja única lembrança que lhe havia deixado era uma fotografia, amarrotada, e queimada num dos cantos a sugerir o desaparecimento de alguém, que na verdade, era ele - do filho mais velho, um rapaz que lhe nutria um enorme ódio e por fim, da sua mulher, a única que realmente algum dia o amara. Vivera na rua, esgotado, e sem forças para caminhar na própria vida, habituara-se a um beco a que dava o nome de casa, onde esperava a caridade e boa vontade de outrem e o único local onde tinha alguém que o esperasse , um pequeno cão, que tal como ele também havia sido abandonado.
Quando lhe perguntavam de que sofria, o homem sem muitos rodeios, respondia que devido ao frio e a chuva do Inverno passado contraíra pneumonia. A doença não parecia afectá-lo muito, não se importava com isso, ele tinha apenas o desejo de voltar a ver a sua filha que teria agora dezoito anos e o seu filho de vinte e quatro.
Estava aparentemente gasto, mais velho do que a idade sugeria, emocionalmente cansado e farto de falar com outras pessoas, pediam-lhe sempre que contasse a sua história, e no final ouvia sempre as mesmas palavras: " falar faz bem, não se sente melhor?" e sem o mínimo de pena, levantavam-se e prosseguiam a sua vida.
Poucas recordações estavam acorrentadas a si, lembrava-se apenas do cheiro doce do cabelo da sua filha, o sorriso brilhante e os olhos cor de mar que herdara da sua mãe, das palavras rudes do filho que ouvia por este gostar de mais dele e não querer vê-lo perder-se.
Sozinho, porque os anos tinham-lhe tirado o pouco que possui-a, chorava relembrando os bons momentos que passara com a sua família. Nunca o tinham visitado nem tão pouco sabia onde se localizavam, queria escrever-lhes uma carta a pedir desculpas e a dizer o quanto se arrependeu de tudo o que fez, mas não podia. Então, de noite sonhava que escrevia a carta, que a queimava junto ao mar e desejava que esta invadisse os sonhos dos seus amados.
Os dias passaram e não se sabe de que morreu, se da doença que lhe tirou a vida, ou se da vida que lhe deu uma doença.

Inês de Carvalho, 2007

7 comentários:

  1. Uma boa resposta sem dúvida e um texto magnifico, parabens.

    Beijo

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  2. parece o grupo III de um teste de português, e, se eu fosse professora, com certeza terias cotação máxima.
    escreves tão bem que chega até a irritar mas, a verdade é que quando procuro algum conforto nas palavras, ou escrevo ou leio-te :)

    que texto maravilhoso Inês *-*

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  3. "Os dias passaram e não se sabe de que morreu, se da doença que lhe tirou a vida, ou se da vida que lhe deu uma doença."

    Quantos de nós não 'morremos' já tantas vezes, esperando que a vida nos retirasse a doença que nos deu, ao afastar-nos daqueles que amamos?

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  4. eu lembro-me deste teu texto :)
    é sem dúvida LINDO e a última parte: "Os dias passaram e não se sabe de que morreu, se da doença que lhe tirou a vida, ou se da vida que lhe deu uma doença." , simplesmente perfeita.

    GMDT, minha inês (L)

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  5. sabes que mais ? AMEI o texto *____________*

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