Há noites que não durmo, noites seguidas de mais para ser verdade. Noites em que te imagino entre uma e outra páginas do livro para não me esquecer de me lembrar de ti. Noites em que não deito a cabeça na almofada, como uma criança com medo do monstro que vive debaixo da cama e que a vai atacar assim que ela adormecer, eu não me deito com medo de te perder. Eu não te digo, e guardo para mim, deixo que fique aqui fechado à espera de ganhar pó, à espera que eu me esqueça, e que o mundo se esqueça que eu reparei mas não fui capaz de falar, não fui capaz de sentir, nem quis, deixo guardadas as saudades porque dói quando as começo a sentir. Então, bebo mais um café, e mais outro, e quantos forem precisos para não adormecer e, quando acordar tu já não cá estares.
A minha vida sempre passou a alta velocidade, há dias de que não me lembro, dias de que não me quero lembrar e dias que não consigo esquecer, sempre fui de palavras, elas sempre me bateram mais do que deviam, e sempre entraram mais do que eram capazes, por isso, quando elas ficam, eu não sei como as tirar, não sei despejar o lixo que se acumula em mim, não sei dizer-lhes que chega, que já não servem, que já não cá estão a fazer nada e há pessoas que precisam delas, há pessoas que precisam de palavras como respiram. Já eu, não vou precisando de muitas, preciso apenas que elas me aqueçam o coração, que cheguem de mão dada, com um abraço, um beijo, ou umas festinhas na testa enquanto me deito no colo, e que se vão embora com um,
eu queria ficar contigo mas, tenho que ir.
A noite vai passando, já é de dia e agora, já é seguro dormir, já é seguro deitar-me nos teus braços, encaixar-me no teu corpo e deixar que o medo se vá embora até que a noite chegue a nós outra vez. Já é de dia, e os meus monstros não te podem levar para longe de mim à luz do sol. Nunca fui simples, raramente optei pela decisão mais rápida tão raramente como me deixei conhecer, nunca tiro a pele que me cobre até que chegue a pessoa certa, não é fácil de compreender quando se conhece, sou uma personagem difícil e daria um livro demasiado enfadonho. Ou quero ou não quero, eu não gosto de talvez, não gosto de pensar que talvez seja ou possa ser, quero um sim e o não, o mais certo e o mais errado, mas não posso cair no talvez ou nada de mim se vai compreender, não lido bem com os dias a passar, queria que eles não acabassem, gosto de bons momentos, momentos que ficam e que não importe o tempo que passe eles não se vão esquecer, momentos que não caem na caixa das recordações mas ficam sempre
à flor da pele, e por isso, não percebes quando não quero que vás embora. Então, com medo que vás, vai chegar a noite e eu não vou conseguir adormecer.
Não gosto de despedidas apressadas, gosto de eternizar o momento, gosto de beijos prolongados, abraços demorados, e segredos que entre nós dois nada têm de segredos, gosto de sentir que somos um. A noite chega e lembra-me que estamos separados, que eu estou na minha cama, a lembrar-me que podia ter dito mais quando me disseste adeus hoje, e que tu estás na tua, se calhar a pensar o quanto eu sou egoísta e não me contento com o que tenho, entretanto, esqueces-te que eu só queria ter a certeza de que nada tivesse ficado por dizer, queria um abraço mais apertado para te deixar ir embora até amanhã, não percebes o quanto é difícil ficar longe de ti quando te amo tanto.
Agora, que o dia clareou, e o medo desapareceu por instantes, deixo que me leias, e que me tentes perceber quando não me queres ouvir e deixo-me dormir até tu me vires acordar com um beijo. Bons sonhos, meu amor.