1.7.09
everything come and go
26.6.09
viver (de) ti
Não há histórias começadas por “Era uma vez”, quando é que as histórias realmente começam?!
As personagens já existem, os maus já são maus, os bons já são bons, e os que nada são?
É desses que ninguém fala, e no final, são eles que têm as histórias.
Quem é que escreve os que nada são até que começam a ser tudo?
Não são os bons nem os maus, esses têm papeis limitados, são apenas tudo.
Gostava de te dizer que mudaste o meu mundo, mas as palavras não saiem, são poucas pra tanto. O mais fácil é dizer - obrigado por existires na minha vida.
Agora já consigo dormir, sei que mesmo que o sol não lá esteja o dia vai brilhar. Agora já consigo dormir, sei que mesmo que os sonhos me invadam o sono e provoquem insónias, amanhã quando acordar a realidade vai lá estar. Agora já consigo dormir, sei que se gritar não vais fugir. Agora já consigo dormir, já sei que não preciso de ter medo. Agora já consigo dormir, estás ao meu lado, e isso basta. Já sei fechar os olhos porque tenho um melhor motivo para os abrir. Bons sonhos, a noite já não é tão assustadora e amanhã o tempo passou mais rápido.
“ o tempo que passamos juntos vai ficar pra sempre,
intimidade, brincadeira, só a gente entende,
pra quem falar que namorar é perder tempo eu digo:
há muito tempo não cresci o que eu cresci contigo
(...)
sempre acontece, o tempo pára quando eu tou do seu lado
a noite chega eu fecho os olhos, é você quem eu vejo ”
16.6.09
Boa noite.
Adormeço a pensar em palavras, e acordo à espera de gestos;
30.5.09
Doença de uma vida.
José Saramago, " Bagagem do Viajante "
... da dolorosa vida que levara e continuara a trazer com ele, a família que após uma luta intensa contra o seu vício, o jogo, o deixara.
- Partiram sem dizer nada. - contava ele, tristemente, aos seus, agora, companheiros. - Saíram de casa ao amanhecer, mesmo antes da sua quinta dar os seus primeiros sinais de movimento à amarga manhã que viria a surgir.
A claridade começava agora a invadir-lhe os olhos, era mais um dia. Sabia que tinha mais um obstáculo pela frente, viver até ao amanhã. Ouvia falar de tudo, as pessoas que o viam, comentavam baixinho umas para as outras o aspecto que ele tinha: a barba visivelmente por fazer à vários dias, o cabelo branco e velho, a face cansada e carrancuda vincada pelas rugas da memória e a sua cor suja de um passado menos bom.
Estava na hora da conversa, e como sempre, proferia as palavras: " partiram ao amanhecer… " e continuava a sua história.
Levara a sua vida, nos últimos dez anos, longe da filha, - cuja única lembrança que lhe havia deixado era uma fotografia, amarrotada, e queimada num dos cantos a sugerir o desaparecimento de alguém, que na verdade, era ele - do filho mais velho, um rapaz que lhe nutria um enorme ódio e por fim, da sua mulher, a única que realmente algum dia o amara. Vivera na rua, esgotado, e sem forças para caminhar na própria vida, habituara-se a um beco a que dava o nome de casa, onde esperava a caridade e boa vontade de outrem e o único local onde tinha alguém que o esperasse , um pequeno cão, que tal como ele também havia sido abandonado.
Quando lhe perguntavam de que sofria, o homem sem muitos rodeios, respondia que devido ao frio e a chuva do Inverno passado contraíra pneumonia. A doença não parecia afectá-lo muito, não se importava com isso, ele tinha apenas o desejo de voltar a ver a sua filha que teria agora dezoito anos e o seu filho de vinte e quatro.
Estava aparentemente gasto, mais velho do que a idade sugeria, emocionalmente cansado e farto de falar com outras pessoas, pediam-lhe sempre que contasse a sua história, e no final ouvia sempre as mesmas palavras: " falar faz bem, não se sente melhor?" e sem o mínimo de pena, levantavam-se e prosseguiam a sua vida.
Poucas recordações estavam acorrentadas a si, lembrava-se apenas do cheiro doce do cabelo da sua filha, o sorriso brilhante e os olhos cor de mar que herdara da sua mãe, das palavras rudes do filho que ouvia por este gostar de mais dele e não querer vê-lo perder-se.
Sozinho, porque os anos tinham-lhe tirado o pouco que possui-a, chorava relembrando os bons momentos que passara com a sua família. Nunca o tinham visitado nem tão pouco sabia onde se localizavam, queria escrever-lhes uma carta a pedir desculpas e a dizer o quanto se arrependeu de tudo o que fez, mas não podia. Então, de noite sonhava que escrevia a carta, que a queimava junto ao mar e desejava que esta invadisse os sonhos dos seus amados.
Os dias passaram e não se sabe de que morreu, se da doença que lhe tirou a vida, ou se da vida que lhe deu uma doença.
Inês de Carvalho, 2007
12.5.09
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you make it easier when life gets hard.
- nunca dizer(-te) adeus